Em desafio à oposição dos EUA e de Israel, o presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmud Abbas, entregou nesta sexta-feira ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, a carta reivindicando a aceitação de um Estado palestino com status pleno no organismo. Sob aplausos, uma cópia do pedido foi apresentada posteriormente por Abbas durante seu discurso perante a 66ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York.
Foto: AFP
Mahmud Abbas mostra uma cópia da carta do pedido de adesão formal do Estado
palestino, entregue a Ban Ki-moon mais cedo, durante discurso na Assembleia
Geral da ONU
Abbas foi recebido com uma grande ovação e assobios de apreciação ao se aproximar do púlpito para detalhar as esperanças e sonhos de sua população pelo status pleno na ONU, em uma medida dramática que tenta superar quase duas décadas de negociações fracassadas por um Estado independente. Alguns membros da delegação israelense, incluindo o chanceler Avigdor Liebermann, deixaram o plenário enquanto Abbas se preparava para discursar.
"Aspiramos a um papel maior e mais efetivo na ONU para alcançar uma paz justa e completa em nossa região que assegure os direitos nacionais legítimos e inalienáveis da população palestina como definido pelas resoluções de legitimidade internacional da ONU", disse no início de seu discurso.
Em resposta ao pronunciamento de Abbas, o
primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, rejeitou a ideia de que Israel
não quer a paz, acusando os palestinos de se recusar a negociar. "A verdade é que os palestinos querem um Estado sem a
paz", disse na Assembleia Geral.
Afirmando que os assentamentos israelenses são o principal obstáculo para a paz, Abbas afirmou que as negociações "não terão significado" se Israel continuar construindo colônias nas terras que os palestinos reivindicam para um futuro Estado. Ele também alertou que seu governo pode entrar em colapso se as construções continuarem. Os palestinos querem que seu Estado seja estabelecido conforme as fronteiras anteriores à Guerra do Seis Dias, de 1967, que incluem a Faixa de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental.
"Essa política é responsável pelo contínuo fracasso das sucessivas tentativas internacionais de salvar o processo de paz", disse Abbas, que rejeitou negociar até a expansão das colônias cesse. "Essa política dos assentamentos ameaça também minar a estrutura da ANP e mesmo sua existência."
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Em seu pronunciamento, o líder palestino indicou que a iniciativa palestina na ONU era tomada perante os fracassos consecutivos de conseguir o estabelecimento de um Estado palestino por meio de negociações com Israel. Abbas acusou o governo do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, de "rapidamente destruir as esperanças criadas pelas negociações em setembro (de 2010)" - em referência às primeiras conversações de paz diretas em 20 meses lançadas pelo presidente dos EUA, Barack Obama, no ano passado.
Ao fazer o pedido histórico de reconhecimento na ONU, Abbas reivindicou Jerusalém Oriental como capital do Estado palestino e a libertação de presos políticos e detentos em prisões israelenses sem adiamentos. Ele também declarou que, em nome da Organização de Libertação Palestina (OLP), os palestinos renunciam à violência e rejeitam e condenam o terrorismo em todas as suas formas, especialmente o terrorismo de Estado, afirmando que serão cumpridos todos os acordos assinados entre a OLP e Israel.
O apelo de Abbas na ONU, porém, não acarretará mudanças imediatas em campo: Israel continuará como força ocupante na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental e permanecerá restringindo acesso à Faixa de Gaza, que é controlada pelos militantes palestinos do Hamas.
Para ingresso na ONU, é preciso obter no Conselho de
Segurança da ONU uma maioria de nove votos e nenhum veto dos cinco países com
esse direito (EUA, França, Reino Unido, Rússia e China). No entanto, o
presidente americano, Barack Obama, já anunciou que vetará o pedido palestino. Assim como
Israel, Washington argumenta que um Estado só pode ser estabelecido por meio de
negociações.
As negociações diretas entre palestinos e israelenses estão estagnadas há um ano por causa da recusa de Israel em evitar novos assentamentos de colonos. O Conselho de Segurança não tem um prazo definido para analisar a carta palestina, mas, segundo especialistas, esse processo pode levar várias semanas ou meses.
Com o provável fracasso da tentativa de obter o reconhecimento completo no Conselho de Segurança, os palestinos devem então pedir à Assembleia Geral que aprove a mudança de seu status de "entidade" para "Estado observador não-membro" - que é usufruído por outros, como o Vaticano, e contra o qual um veto não é possível. Para aprovar a mudança, precisariam de dois terços dos 193 votos da Casa.
Violência na Cisjordânia
Antes do discurso, um palestino foi morto por disparos durante um confronto com soldados israelenses e colonos na Cisjordânia, em um sinal de aumento de tensão pela reivindicação palestina. O incidente, testemunhado por um repórter da Associated Press, começou quando 200 colonos queimaram e desenraizaram árvores nesta sexta-feira perto da vila palestina de Qusra.

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